a um porco
in memoriam
Eu queria te dizer o quanto tu foi infeliz ao me escolher para compartilhar o teu mau-humor matinal. Infeliz pela escolha e pelo horário: nem mais manhã era. Eu tinha aberto as janelas pro morno do início da tarde entrar, sacudindo a poeira há tanto estanque nas cortinas, nos móveis, em ti, e me perdi olhando as partículas que a formavam dançarem majetosas, como fadas, frente aos meus olhos, incrédulos. E talvez tenham sido essas mesmas fadas a me fadar, ou não, porque este sempre foi um estado que almejei. Agora que o tenho - ou que nele me encontro -, tudo o que gostaria era desconhecê-lo.
Ele se intesifica quase como as sardas ao menor indício de sol: assexuadamente. Sardas. Pessoas ruivas. Que poder há nelas? Nenhum! Santa estupidez atearem fogo às ruivas em plena praça pública durante a santa inquisição. Bruxas?!, pois sim: santa ignorância.
O que te sobra, me falta. Pudera eu ignorar esse estado. Nunca tive heróis, mas, se os tivesse, eles não morreriam de overdose; nunca tive inimigos - não que tenha tomado conhecimento -, mas, se os tivesse, eles nunca chegariam ao poder; ideologia...
Eu deveria estar levantando do chão, mas esse estado me impede de quase qualquer coisa, de quase tudo. Ou quase nada. Que nada é tudo pra quem está nesse estado. E isso é tão clichê.
Eu não quero te falar delas, das pessoas, nem de ti. E não falarei. Mesmo sendo elas, as pessoas, e tu os corroboradores desse meu estado. Claro que fui eu a me colocar nele, e não foi fácil: foram anos de mantra, uns quatro, acho (anos, não mantra; mantra foi um só: encontrar-me nesse estado). As pessoas, o estado, o mantra. E eu ainda preciso levantar do chão.
Na verdade, eu quero falar das pessoas, de ti. Não. Eu quero falar pras pessoas, pra ti. Falar nelas não seria falar pra elas, assim como falar de ti não seria necessariamente falar pra ti, e o que eu preciso é vomitar esse estado nelas, em ti. Mas esse estado é só meu. E mesmo que ele seja ruim (ainda não sei se é ruim, se é bom, se é), é meu, só meu. Uma das poucas coisas minhas. Então, deixa pra lá!
Eu queria te dizer o quanto tu foi infeliz ao me escolher para compartilhar o teu mau-humor matinal. Infeliz pela escolha e pelo horário: nem mais manhã era. Eu tinha aberto as janelas pro morno do início da tarde entrar nos meus poros, nos teus poros, nos nossos poros completamente expostos. Eu ia te pedir pra trepar comigo essa tarde, pra me ajudar a tentar enganar esse estado, pra ficar comigo essa tarde, essa noite, amanhã, a manhã toda, e outra tarde, e outra noite, e a vida toda, porque tenho medo que o estado deixe de estar e passe a ser.
Eu ia te pedir pra tu estampar meu corpo com teu suor, com tua saliva, com teu gozo, pra depois eu estampar os muros da cidade com tuas cores. Tuas, deles, nossas. Tantas cores. Tantos amores. Todos os amores do mundo.
Eu ia te pedir pra abrir aquele vinho branco que tá gelando há tempos esperando esse momento e pra sentar aqui comigo e pra me deixar falar dessas coisas, dessas pessoas, de ti, mesmo que o necessário fosse falar para e não em. Eu ia te pedir pra me deixar falar essas coisas que não sei de mim, porque o que eu sei tu também sabe; todo mundo sabe, mas uns fingem não saber. A ignorância, em alguns casos (no teu caso), é uma dádiva: não dói.
Fica aí com a tua ignorância que eu fico aqui com o meu estado, porque impérios caem e outros são erguidos em seu lugar, no teu lugar, no meu lugar e já passa da (minha) hora de levantar do chão.
in memoriam
Eu queria te dizer o quanto tu foi infeliz ao me escolher para compartilhar o teu mau-humor matinal. Infeliz pela escolha e pelo horário: nem mais manhã era. Eu tinha aberto as janelas pro morno do início da tarde entrar, sacudindo a poeira há tanto estanque nas cortinas, nos móveis, em ti, e me perdi olhando as partículas que a formavam dançarem majetosas, como fadas, frente aos meus olhos, incrédulos. E talvez tenham sido essas mesmas fadas a me fadar, ou não, porque este sempre foi um estado que almejei. Agora que o tenho - ou que nele me encontro -, tudo o que gostaria era desconhecê-lo.
Ele se intesifica quase como as sardas ao menor indício de sol: assexuadamente. Sardas. Pessoas ruivas. Que poder há nelas? Nenhum! Santa estupidez atearem fogo às ruivas em plena praça pública durante a santa inquisição. Bruxas?!, pois sim: santa ignorância.
O que te sobra, me falta. Pudera eu ignorar esse estado. Nunca tive heróis, mas, se os tivesse, eles não morreriam de overdose; nunca tive inimigos - não que tenha tomado conhecimento -, mas, se os tivesse, eles nunca chegariam ao poder; ideologia...
Eu deveria estar levantando do chão, mas esse estado me impede de quase qualquer coisa, de quase tudo. Ou quase nada. Que nada é tudo pra quem está nesse estado. E isso é tão clichê.
Eu não quero te falar delas, das pessoas, nem de ti. E não falarei. Mesmo sendo elas, as pessoas, e tu os corroboradores desse meu estado. Claro que fui eu a me colocar nele, e não foi fácil: foram anos de mantra, uns quatro, acho (anos, não mantra; mantra foi um só: encontrar-me nesse estado). As pessoas, o estado, o mantra. E eu ainda preciso levantar do chão.
Na verdade, eu quero falar das pessoas, de ti. Não. Eu quero falar pras pessoas, pra ti. Falar nelas não seria falar pra elas, assim como falar de ti não seria necessariamente falar pra ti, e o que eu preciso é vomitar esse estado nelas, em ti. Mas esse estado é só meu. E mesmo que ele seja ruim (ainda não sei se é ruim, se é bom, se é), é meu, só meu. Uma das poucas coisas minhas. Então, deixa pra lá!
Eu queria te dizer o quanto tu foi infeliz ao me escolher para compartilhar o teu mau-humor matinal. Infeliz pela escolha e pelo horário: nem mais manhã era. Eu tinha aberto as janelas pro morno do início da tarde entrar nos meus poros, nos teus poros, nos nossos poros completamente expostos. Eu ia te pedir pra trepar comigo essa tarde, pra me ajudar a tentar enganar esse estado, pra ficar comigo essa tarde, essa noite, amanhã, a manhã toda, e outra tarde, e outra noite, e a vida toda, porque tenho medo que o estado deixe de estar e passe a ser.
Eu ia te pedir pra tu estampar meu corpo com teu suor, com tua saliva, com teu gozo, pra depois eu estampar os muros da cidade com tuas cores. Tuas, deles, nossas. Tantas cores. Tantos amores. Todos os amores do mundo.
Eu ia te pedir pra abrir aquele vinho branco que tá gelando há tempos esperando esse momento e pra sentar aqui comigo e pra me deixar falar dessas coisas, dessas pessoas, de ti, mesmo que o necessário fosse falar para e não em. Eu ia te pedir pra me deixar falar essas coisas que não sei de mim, porque o que eu sei tu também sabe; todo mundo sabe, mas uns fingem não saber. A ignorância, em alguns casos (no teu caso), é uma dádiva: não dói.
Fica aí com a tua ignorância que eu fico aqui com o meu estado, porque impérios caem e outros são erguidos em seu lugar, no teu lugar, no meu lugar e já passa da (minha) hora de levantar do chão.
desisti de levantar do chão, mas se o convento não me fizer chorar, tu já fez... tlvez só para ter uma desculpa para deixar as lágrimas rolarem livremente.
ResponderExcluirEspetacular... profundo... poético... autêntico... supérfluo e, ao mesmo tempo, urgente!!!! é a emergência que alguém precisa pra respirar melhor!!!!! William - Letras Uniritter.
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