quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Dos pactos - parte primeira

porque nem toda mentira é farsa

Eu te condeno. Assim: diretamente. Eu te condeno. Talvez porque sejamos parecidos demais, tão parecidos que o que me causa repulsa em ti é justamente aquilo que não quero assumir como meu, aquilo que já causou repulsa em tantos outros porque, da mesma forma, não quiseram assumir como suas as repulsividades que reconheciam em mim. Mas eu não estou a fim de seguir por esse bababa de projeção junguiana.
Condenado estás porque culpado és. Estar, ser. Acho que são verbos de ligação, não?! Nunca me dei bem em/com/para português. Estávamos ligados: teu pau dentro da minha buceta: elo. Mas eu sou - e poderia ter sido (pra ti) - muito mais do que uma buceta, mesmo que tudo fosse só sexo, afinal sexo não é só pau-na-buceta; sexo é muito mais do que pau-na-buceta, diga-se, assim, quase que de passagem. Ninguém nunca te avisou isso, meu bem?! Do alto dos teu trinta-e-tantos anos, como pudeste ignorar algo tão primário?! Simples: como alguém poderia te avisar se tu sempre comes pseudo-ninfetas de vinte-e-poucos aninhos que mal sabem como posicionar os dedos em volta dum caralho?! Como tu poderias te dar conta de que mulheres não são só bucetas se tu sempre és o centro das trepadas?!
Mas não te sintas tão mal, meu bem. Teu histórico de comer pífias novatas alivia teu fardo: na primeira metida, mesmo que ainda secas, oh!. E, no mais, eu posso assumir um pouco dessa culpa, pois não te sentirias tão bambambam se eu não tivesse fingido tantas vezes, se eu não tivesse te tratado tão bem te masturbando e te chupando e te fodendo como se fosse a última noite em que ficávamos juntos. Mas nunca era. Sempre vinham outras noites, por mais que eu me prometesse que, aquela, aquela sim!, seria a última. E todas eram as úlitmas. Te perguntas agora porque é, então, que eu sempre voltava a te ver? Me perguntei isso tantas vezes. Sinceramente: não sei. Algumas noites - nem uma nem duas, mas algumas - , enquanto dormias, me peguei te olhando e pensando o que me levava a ficar contigo se eu nem gostava de ti pra tamanho deslocamento tempo-espaço. Não penses que eu não gostava, gostava, mas não ao ponto de. Tesão? Nem tanto. Carinho? Nem tanto. Um papo meia-boca, uma trepada meia-boca, um carinho meia-boca. Acredita: eu realmente não sei.
No mais, eu nunca consegui ser plena quando estava contigo. Não, não pensa que eu não era eu mesma. Não é nada disso. A verdade é que eu era apenas uma parte. Eu não sei dizer se eu simplesmente não conseguia mostra a(s) outra(s) parte(s) ou se eu me limitava a fingir ser apenas aquilo que tu conhecias - e dizias gostar. E nem era o meu melhor. Não era uma mentira, uma fraude, uma farsa. Só não era o todo. Eu nunca me senti a vontade pra te dizer qual música eu queria ouvir, em que lugar eu queria comer, em que horário eu queria acordar. Tampouco pra te pedir pra contar uma historinha, pra fazer comigo as coreografias das músicas felinas que eu inventava, pra pular de mãos dadas comigo pelas ruas evitando pisar nas linhas, pra deitar comigo na grama e desenhar nuvens até Vênus aparecer, e eu nem sei se Vênus aparece ao entardecer ou ao amanhecer, mas eu queria que ele (o planeta? o amor?) ou ela (a estrela? a deusa?) aparecesse. Mas nunca apareceu: não era o tipo de acontecimento próprio à nossa relação. E era uma relação?

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