quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Dos desejos

porque ela ainda não consegue entender

uma puta barata: esmalte vermelho gasto e descascado, cabelo sujo, olhos injetados, corpo suado, usado, cansado.

a puta fica parada olhando fixamente para. e lhe perguntam no que pensa. ela não pensa. deseja. como desejou, na quarta.

depois de descer do carro, ela cuidou o trajeto que ele fez até o sinal e esperou que ele dobrasse à direta. ele dobrou à esquerda. ela acendeu um cigarro, tragou lentamente, pensando que seria tempo suficiente para ele dar a volta na quadra, dirigir até onde ela se encontrava, parar o carro e abrir a porta para que ela entrasse. outras tragadas e ela ainda esperava. e a espera se tornou tanta que todos os carros se tornaram iguais ao dele e ele dirigia todos eles e nenhum parava.

na cabeça da puta, Tennesse Williams ardendo como queimadura recente: e se ela pegasse um bonde chamado Desejo enquanto a chuva caisse mansa lá fora e se ele falasse com ela doce como a chuva e a perdoasse por todos os seus erros e se depois, juntos, eles pegassem um bonde chamado Cemitérios, para que, chegando ao destino, ela enterrasse todos os seus erros? mas os bondes não existem mais, não chove lá fora e os erros dela são tantos que.

restou a ela pegar o ônibus de todos os dias desejando que ele a levasse para algum lugar além. quem sabe Elysian Fields?! não a levou. ela olhou pela janela e todos os carros continuavam sendo iguais ao dele. pensou então que ele poderia estar seguindo o ônibus e que, quando ela descesse, ele se atravessaria na frente dela. desceu do ônibus e. pensou então que ele poderia estar estacionado na sua rua e, assim, entrou nela o procurando, mas. ele poderia, talvez, estar parado na entrada do seu prédio. quem sabe?!, sentado na sala. ainda restava o quarto.

mas como ela não era Stella e, como lera outro dia, os diálogos não são de filme, os beijos não são de filme, o amor não é de filme
.

ela pediu tanto, ela implorou, que ele não a deixasse sozinha naquela noite, pois sabia como as coisas se tranformam rapidamente quando a escuridão a toma. os erros eram realmente todos dela? era ela mesmo a puta dessa história toda? porque ela precisava pedir desculpas o tempo todo por tudo? não fora ela a ser deixada na mesa? não fora ela a sujeitar-se à humilhação de ver ele explicar-se a uma vadia qualquer como se essa lhe fosse de grande valia? não fora ele quem lhe colocara na posição de putinha-barata-mais-uma-dessas-que-como quando, após explicar-se àquela, negou-se a lhe dizer o que acabara de acontecer?

tudo o que ela desejou foi morrer logo porque morrer aos poucos doía demais.
pensou na última palavra dele.
chorou muito.
contraiu o corpo.
e não dormiu.

uma puta barata: esmalte vermelho gasto e descascado, cabelo sujo, olhos injetados, corpo suado, usado, cansado.

a puta fica parada olhando fixamente para. e lhe perguntam no que pensa. ela não pensa. deseja. como desejou, na quinta.

confusa, não sabia se espereva ou se abandonava. esperou. esperou o dia todo que ele entrasse por aquela porta com uma maçã no bolso dizendo que se importava com ela, que cuidaria dela, que queria ela mais do que qualquer coisa e que faria qualquer coisa para tê-la. ele não entrou por aquela porta com uma maçã no bolso dizendo que se importava com ela, que cuidaria dela, que queria ela mais do que qualquer coisa e que faria qualquer coisa para tê-la. ele simplesmente não entrou.

cigarros e aspirinas eram as únicas coisas que ela conseguia ingerir. na cabeça estonteada, pensava porque ele havia dito tantas coisas que não coincidiam com suas atitudes.
"o que tu quer?
quer um gps em mim?
eu arranjo
to falando sério
o que tu quer pra confiar em mim?
quer fazer visitas surpresas?
ok, eu deixo
nem reclamo
quer olhar meu celular?
quer minhas senhas de orkut, mail?
eu não sei mais o que fazer... me diz o que tu espera de mim que eu faço logo
quer um pedido de namoro?
namora comigo? (é serio)
quer uma aliança de compromisso?
eu vou ali no shopping buscar
quer que eu deixe a cam do pc ligada constantemente pra ti ver o que faço?
quer que eu troque o miguel contigo por um com alto valor sentimental pra ficar em tua posse como garantia?
faço qualquer uma dessas coisas se tu parar com essas bobagens
to aqui tentando fazer as coisas direitas contigo
será que tu não vê isso?"
ela não conseguia entender.
"eu te amo
adoro estar aqui contigo
apesar de todas as brincaderias sobre casamento, se tu aceitasse, eu casaria contigo"
ela não conseguia entender.
ela não conseguia entender como alguém fala tantas coisas e age de forma tão diferente. talvez por ela ser uma puta barata, velha, gorda, feia, burra. talvez por isso ele não a assumisse.
"TU não quis vir aqui em casa
TU não quis conhecer minha mãe
TU
TU
TU"
ela não conseguia entender.
e se ela tivesse ido na casa dele? e se tivesse conhecido a mãe dele? ele a assumiria para o ex(?)-casinho de meses(?) atrás ao invés de lhe ter tratado como mais um dos seus casinhos?
"eu só conto pra quem precisa saber, pra quem importa pra mim"
ela não conseguia entender.
ela servia para estar com ele junto a amigos e a familiares? era isso?! as outras pessas com quem ele se relacionara e eventualmente o procuravam não precisavam saber que ele estava com ela? por que? ele continuava disponível para elas?

ela não conseguia entender.
ele namorava com ela para algumas pessoas e para outras não? e se eles casassem? ele tiraria a aliança ao encontrar essas outras pessoas? e se ela engravidasse? ele seria o pai da criança para algumas pessoas e para outras não?

ela tentava, mas não conseguia entender.

e ele também não a entendia.
ele precisava de alguém que confiasse cegamente nele. mas, depois do que aconteceu, depois dela ter sido tratada como uma qualquer na frente de uma qualquer, como confiar cegamente?
ela precisave de alguém que lhe desse segurança plena.
mas, depois do que aconteceu, depois dela ter sido tratada como uma qualquer na frente de uma qualquer, como se sentir plenamente segura?

cada vez mais confusa, sabia cada vez menos se esperava ou se abandonava. continou esperando. alguma manifestação. qualquer que fosse. celular, msn. mas nada acontecia.

a janelinha do msn piscou.
"R: como tu tá?
A: respinrando... e tu?
R: ok
A: hum
R: hum
(meia hora de silêncio)
A: bom... não tou bem... meu chefe percebeu e me liberou pra ir embora mais cedo... tou saindo"
uma conversa vazia. ela sentia vontade de dizer que estava mal, que tudo doía, que. mas não disse. uma vez, ela perguntou a ele por que ele nunca fora atrás dela nas vezes em que ela sumiu. ele respondeu que acreditava que era o que ela queria e respeitava isso. assim, agora era a vez dela de se manter em silêncio, pois, como ela lhe dissera, ele sabia como e onde a encontrar: se quisesse falar com ela, ela estaria lá. o que a incomodava não era se ele não quisesse falar; era se ele quisesse depois de muito tempo. porque esse silêncio somado à última palavra dele doía. e ela se entregava a essa dor. e deixava doer. deixava doer tudo o que tivesse pra doer. e a dor se tornaria tanta que ela quase morreria. e nessa quase morte tudo se apagaria. ela não queria apagar ele. a putinha barata lutava pra não se entregar à dor. mas o silêncio dele.

saiu sozinha, acompanha de cigarros e dores. o celular vibrou. 1 nova mensagem. ela sabia que não era ele. e não era. ao menos ainda tinha amigos. saiu. bebeu. fumou. mas nada a distraía de verdade. a cabeça tonta, o corpo mole, o coração rasgado.

tudo o que ela desejou foi morrer logo porque morrer aos poucos doía demais.
repetiu muito a última palavra dele.
não chorou.
abandonou o corpo.
e dormiu.


uma puta barata: esmalte vermelho gasto e descascado, cabelo sujo, olhos injetados, corpo suado, usado, cansado.

a puta fica parada olhando fixamente para. e lhe perguntam no que pensa. ela não pensa. deseja. como desejou, na sexta.

ela não sabia mais o que desejar.





(sexta-feira, 14 de agosto de 2009)

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