porque, para falar com ele, era preciso falar doce como a chuva
fazer as malas e sumir. entre o acender de um cigarro no outro, era a única coisa em que ele pensava: fazer as malas e sumir. mas sumir pra onde? como? com que dinheiro? e as malas, em cima do guarda-roupas, tomadas de pó, pareciam pesadas demais. o que ele colocaria dentro delas? roupas? livros? discos? fotos? garrafas de absinto? vasos de avencas? patinhos de borracha? medos? traumas? dores? não. não levaria nenhuma lembrança. nem boas nem más. levaria apenas roupas brancas, vinhos tintos, cigarros pretos, agulhas prateadas e linhas vermelhas.
toda vez em que fechava os olhos, ao invés da escuridão costumeira - aquela que independia das horas do dia ou da noite, dos olhos abertos ou fechados, dos bons ou maus pensamentos -, uma claridade sem fim o invadia, trazendo consigo a paz morna dos fins de tarde de verão.
e era só isso que ele queria: essa paz clara e morna.
vestes brancas, sandálias numa das mãos, uma cesta de palha com uma toalha branca, uma garrafa de vinho, uma taça linda de cristal - daquelas bem gordas -, uma carteira de cigarros, uma caixinha de fósforos, agulhas e linhas na outra mão. assim, no fim das tardes claras e mornas, ele andaria pela beira do mar, onde ondas morreriam em seus pés descalços, até cansar e, cansado, pararia, largaria as sandálias e a cesta, estenderia a toalha na areia, acomadaria-se sobre ela, serviria-se de vinho, acenderia um cigarro e, calmamente, costuraria o coração.
durante todas as tardes do resto de sua vida.
"... fala comigo doce como a chuva
e eu ficarei deitado aqui e ouvirei
eu ficarei... "
e eu ficarei deitado aqui e ouvirei
eu ficarei... "
fazer as malas e sumir. entre o acender de um cigarro no outro, era a única coisa em que ele pensava: fazer as malas e sumir. mas sumir pra onde? como? com que dinheiro? e as malas, em cima do guarda-roupas, tomadas de pó, pareciam pesadas demais. o que ele colocaria dentro delas? roupas? livros? discos? fotos? garrafas de absinto? vasos de avencas? patinhos de borracha? medos? traumas? dores? não. não levaria nenhuma lembrança. nem boas nem más. levaria apenas roupas brancas, vinhos tintos, cigarros pretos, agulhas prateadas e linhas vermelhas.
toda vez em que fechava os olhos, ao invés da escuridão costumeira - aquela que independia das horas do dia ou da noite, dos olhos abertos ou fechados, dos bons ou maus pensamentos -, uma claridade sem fim o invadia, trazendo consigo a paz morna dos fins de tarde de verão.
e era só isso que ele queria: essa paz clara e morna.
vestes brancas, sandálias numa das mãos, uma cesta de palha com uma toalha branca, uma garrafa de vinho, uma taça linda de cristal - daquelas bem gordas -, uma carteira de cigarros, uma caixinha de fósforos, agulhas e linhas na outra mão. assim, no fim das tardes claras e mornas, ele andaria pela beira do mar, onde ondas morreriam em seus pés descalços, até cansar e, cansado, pararia, largaria as sandálias e a cesta, estenderia a toalha na areia, acomadaria-se sobre ela, serviria-se de vinho, acenderia um cigarro e, calmamente, costuraria o coração.
durante todas as tardes do resto de sua vida.
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