quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Quebra-cabeça

Porque
quando queremos muito
fazemos com que uma pecinha encaixe em um lugar que não é seu.
E, aparentemente
nem precisamos fazer muito esforço para colocá-la lá.

O esforço se dá para mantermos ela lá.





Ele sentia uma vontade absurda de falar de todas aquelas coisas de todos aqueles tempos. As palavras subiam queimando pela garganta, mas ele não consegui abrir a boca para, como um dragão, cuspir aquele fogo todo que não lhe queimava apenas a matéria. Na boca, sem conseguir sair, elas ficavam, se batendo, se debatendo, se embolando, se misturando. Se, por ventura, conseguissem sair, não fariam mais sentido.

Ele sentia uma vontade absurda de não chorar todas aquelas coisas de todos aqueles tempos. As lágrimas vinham com tanta força que o obrigavam a se encolher e, em posição fetal, deixar que elas saissem.

O Outro, aparentemente sem entender nada, sabia mais do que Ele - mesmo que não admisse para si, muito menos para Ele - e, ainda assim, pedia que Ele falasse. Ele não conseguia falar. Ele queria falar, queria mesmo, queria de verdade, queria parar de chorar e falar. Essa impotência o fazia fazer o que Ele não queria fazer: calar e chorar ainda mais.

Ele queria falar de todas aquelas coisas de todos aqueles tempos. Das coisas que faziam bem e das coisas que faziam mal. Ele queria falar que não, que realmente não, que o Outro, como questionara a ele certa vez e Ele não soube - ou não quis - responder, não tinha nada demais, não era diferente de todos os outros e não era igual a todos os outros, não era especial, não era único, não era nenhuma dessas palavras grandiosas que são usadas para definir (limitar?) algo ou alguém. Qualquer outro poderia ser demais, especial, único. Esse outro era apenas o Outro. O outro pedaço dEle, a outra parte dEle. Assim, era ele mesmo em outro. O Outro não tinha nada demais, nada de especial, nada de único. Ele e o Outro eram um Todo que ambos desconheciam.

Como todos os outros Todos, Ele e o Outro eram apenas mais um todo temporário.

Ela acompanhava a tudo tentando se manter atenta a cada movimento, por mais minúsculo que fosse, buscando montar aquele (quase) imontável quebra-cabeça.

O tempo passou. Algumas peças nunca se encaixaram. Hoje ela tem preferido resta-um à quebra-cabeça.

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