porque...
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Referência:
¹ (ABREU, Caio Fernando. Sem Ana, Blues. In: Os Dragões não conhecem o paraíso. Companhia Das Letras: Porto Alegre, 1988. p.42)
“De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca - de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrimas chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos.”¹E se o diabo me aparecesse, eu venderia minha alma a ele; eu faria qualquer coisa , qualquer coisa que fosse, pra esquecê-la, pra tirá-la de dentro e de fora de mim, pois não bastasse estar entranhada em mim, está também em todos lugares que. Eu a levei aos meus botecos preferidos, a apresentei aos meus melhores amigos, levei-a aos teatros e aos cinemas que frequento. Claro que não temo encontrá-la em algum desses locais, pois seria como ver uma freira muito à vontade na zona, mas, agora, depois de tê-la feito participar da minha vida para que percebesse o que era importante pra mim tê-la por perto, agora, tudo lembra ela. Eu quis isso, admito, quis e fiz com que ela entrasse e participasse da minha vida. Ah! se o diabo me aparecesse.
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Referência:
¹ (ABREU, Caio Fernando. Sem Ana, Blues. In: Os Dragões não conhecem o paraíso. Companhia Das Letras: Porto Alegre, 1988. p.42)