"advertiram-na para que não abrisse a tampa
era necessário
guardaria pra sempre aquela visão:
a face desfigurada pela covardia
sentia-se satisfeita
saiu da capela
acendeu um cigarro
um funcionário do cemitério disse a ela que não poderia fumar ali
a gargalhada foi inevitável
não poderia fumar ali?! pessoas como ele podiam viver tranquilamente durante 28 anos e ela não poderia fumar ali?!
tragou
profuuuuuuuuuundamente
baforou
como se aquilo pudesse aliviá-la
(da dor que a outra sentia)
sorriu
a-li-vi-a-da
e nunca mais chorou"
saindo do cemitério,
topou com um tipo estranho* que,
tempos depois - quase meio século -,
escreveu:
De fato, nunca mais chorou. Mas aquela dor persistiu, com certeza, nas sobras da sua vida. O texto acima eu descobri em um diário velho, esquecido na gaveta de uma cômoda cafona que eu estava para jogar fora ou dar para o Caminhão da Caridade. Mas eu já conhecia a história, ah se conhecia. Foi um fantasma que me atormentou por quase três anos.
Ela volta e meia se lembrava do cara, que mais parecia meleca grudada na sua nuca. Confesso que sempre me deu vontade de dizer: isso tudo já passou, não racionalize mais, só ame que! -- para parodiá-la, porque ela adorava usar esse efeito em seus rabiscos nunca publicados.
Ah, mas de nada adiantaria, seria tarde demais, puta que pariu. Amor perdido. Talvez já fosse tarde até no dia em que nasceu, porque nasceu errada, talvez não fosse nada que valesse a pena. Para ninguém. É o que ela dizia, quando estava bêbada e queria ser bajulada (e daí inventava que eu era tudo para ela). Mas acho que no fundo é verdade, que era tarde demais, porque ela não sabia dar amor, repetindo que nem papagaio: "quero aprender a te amar, aprender a te amar, aprender a te amar". Nunca aprendeu.
Ela nunca mais chorou, mas eu chorava por ela. Eu somava as minhas dores às dores que vinham dela, fazendo do meu peito receptáculo de coisas negras, com agulhas longas e feias. Por quase três anos, mesmo depois de eu descobrir o aborto clandestino. Por quase três anos, apesar dela gritar, em um acesso de raiva, que o feto extirpado não era nem meu. E eu sempre ao lado dela, o grande rei dos masoquistas, eterno palhaço circense.
"Se encarei aulas de dança não foi pela droga da dança", anotei certa feita em um bloquinho, que anos depois joguei fora. E é verdade, eu fazia de tudo para ter sua atenção, até escrever poemas vagabundos. Isso foi antes do namoro, quando ela ainda ia no teatro sem me convidar, para se fazer de desinteressada (mais tarde, em vez de me convidar, decidiu não ir mais ao teatro).
Que ilusão a minha, quanta estupidez, meu Deus! Acho que foi no fundo dessa mulher, em noites de sexo anfibológico, que esqueci todos os sonhos de menino que ainda guardava no bolso. Também perdi nessa época um molho de chaves, mas creio que foi na rua ou no metrô.
Um dia cansei, troquei o disco na vitrola e passei a odiá-la. Simples assim. Maldito dia em que nos casamos, bendita separação. Mais vale um tango mal dançado, porém breve, que toda uma vida de merda.
Depois disso nos topávamos, às vezes, em um café -- na parte baixa da cidade -- para rememorar o passado. Toda alegria era efêmera, contudo, e ela sempre deixava a sua dor-oceano me afogar pouco a pouco. Eu voltava arrasado para o JK.
Ela quis partir com menos de trinta (há quase meio século!), e confesso que a visito só pela nostalgia do lugar, sou viciado em cemitérios. Também sou viciado em putas novas de rua, mas elas agora têm nojo e debocham: "pra véio bem véio é mais caro". E eu não posso bancar isso (mais o Viagra), porque me aposentei muito mal.
Quanto à minha ex, eu não levantei a tampa do seu caixão no velório. Odeio gente covarde. Por mim eu teria botado fogo em tudo.
* por um certo Dr. H
Parabéns Alyne, forma e conteúdo \o/
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