quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Dos quaisquer

porque é indiferente

e ele sussurou gritos de dor-de-dentro naquela noite-madrugada-manhã-insuportável. não havia ontem. nunca mais haveria amanhã
o peito rasgado no agora
não sabia de mais nada
por não saber, enterrou o que restava de ontem: terra preta e pétalas brancas. embaixo disso, um relicário com cinzas: boas, más: quaisquer lembranças não passavam de lembranças, as quais não queria lembrar
o passado havia passado
futuro?
queimou para libertar-se e enterrou para garantir que manteria-se livre
o rasgo no peito, aberto, expondo a massa amorfa também dilacerada que ainda restava - e restava? - deixava com que o que quer que seja que fosse essa massa fosse secando pelo agora que penetrava como feixes de luz que invadem a escuridão dum quarto qualquer naquelas manhãs insuportavelmente quaisquer de março; e apesar de serem apenas segundos de agora com traços de futuro, não passavam de possibilidades, passíveis de realização ou
esse ou interrompido pela impossilidade de sabe-se-lá-o-quê era pura agonia, massa inorgânica que enchia e preenchia e transbordava de dúvida o rasgo no peito, substituindo aquele o que quer que fosse, já completamente seco, feito flor de hibísco (bonita, mas que faz chá azedo), por um vazio absurdamente irônico
ele pensava num apartamento vazio, num quarto vazio, numa sala vazia, numa caixa vazia, numa porra do caralho qualquer completamente vazia. qualquer coisa vazia que fosse poderia ser preenchida por uma ou duas ou três ou quantas fossem coisas quaisquer. mas o vazio. o vazio no peito rasgado não era desses de espaços vazios. não era um vazio a ser preenchido. o vazio por si só se preenchia. preenchia todo o peito. preenchia e latejava até doer, até fazer gritar, até sentir vontade de enfiar os dedos nas fendas deixadas pelos rasgos e arrancar de lá toda aquela dor. mas o vazio era denso demais. se expandia e se grudava nas paredes internas da cavidade peitoral e ia se alastrando, se alastrando, se alastrando
cansado, ele deixou o corpo abandonado no vazio do espaço e o peito no vazio completo da densidade da dor
sem passado, sem futuro, lhe restava o agora, tão desinteressante como todos aqueles ao seu redor, dentro e fora de onde não queria estar
existiria alguma coisa do outro lado do ou?

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